sexta-feira, 18 de novembro de 2011

notas

O caos instaurou-se na minha cabeça, como se nunca antes tivesse acontecido. Sinto que não consigo aguentar por muito mais tempo estes pensamentos enevoados numa tarde de verão quando, ao mesmo tempo, ideias luminosas parecem cair no abismo, e eu procuro o abismo e encontro meias rotas passadas, que não servem para merda nenhuma. Ah! fosse eu conseguir organizar este caos como arrumo o meu quarto, conseguisse eu puxar as minhas orelhas como as que puxo da cama, fosse a minha mãe, autora de tal expressar, conseguir perceber o que sinto. Fosse toda a gente junta, e mais alguma, perceber que me sinto ansiosa, que todos os pensamentos me atacam num só milésimo de segundo, enquanto leio, enquanto penso, enquanto penso no que li e no que ainda não li, enquanto escrevo o que tenho de escrever, sem pensar no que tenho para fazer. Preciso de descansar, não de dormir. Preciso de descansar sim, de respirar, oh quase nem respiro, neste enleio desenfreado. O caos instaurou-se no chão, agora no chão e eu sinto-me uma merda, pronta a deixar para a amanha o trabalho que deveria ter feito, ai meu querido anonimato quanto tu me custas! Paixão pelos estudos execrável que me ataca mesmo de surpresa, mesmo no romper da noite, falo e penso com muitas pessoas que nunca pensaram comigo. Falo e penso com muitas pessoas que nunca pensaram comigo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

E se o amor é como pintar fora da linha? E se o amor significa pintar mal os lábios, pintá-los mais acima, como se eles fossem realmente maiores, ou porque se tem uma dioptria no olho esquerdo e consegue-se pintar mal o lado direito? E se o hábito que os faz pintar, torna a maquilhagem numa cena tão bonita como um quadro de arte abstracta? Porque não pintar a cara? Por que razão não amar, perguntam vocês caros leitores. Digo-vos que não há razão para não se poder pintar os lábios, pois eu ontem pintei-os e fui para a cama. A mim pouco me importa se a verdade é matemática, ou se a verdade tem-me fascinado pouco ultimamente, se a verdade se tornar agora sinónimo de vida. Dizia por aí uma música ambulante que vim parar a este sítio de forma matemática, porém tenho muita pena é que a maneira como reajo por vezes, caros amigos, seja de forma tão insignificante que algum cálculo se daria ao luxo de gastar os seus números. E se o nosso amor nos quer dizer que poderia ser outro, se a variável tivesse sido outra? Bem, já estou como o outro, poder podia, mas não era a mesma coisa. Sinceramente, nada me parece matemático quando estou em véspera de exame. Se bem que ter feito a cadeira de lógica II com melhor nota que a de Lógica I me fez pensar que alguns obstáculos na minha vida me passariam ao lado mas não é o meu espanto quando reparo numa bela cicatriz na mão direita. Pois é, até a mim me desiludo, não é só a vocês. Pensei até em tatuar o nome dessa cadeira no braço, mas adiante, falei nesta cadeira a propósito: Caros lógicos experimentem traduzir o meu texto em linguagem formal. Para mim seria uma bela experiência. Sim Polly Jean Harvey, isto sim, seria desejo suficiente de algo. Pois parece que o meu amor de repente se transformou num cálculo. Bem, se nada do que digo está correcto, não me importo, temos sempre uma maneira de descobrir a validade. Pelo menos, foi isso que entendi. Este discurso parece evidentemente desinteressante, mas continua a interessar-me por um certo sentido, esse sentido chama-se presente do presente, chama-se alguma naturalidade e espontaneidade naquilo que me está a passar pelo pensamento. (sim, acho que é aí que passa), e se fosse pelas mãos? (eu sei caros leitores, já tinha dito isto antes). Preferia mais ingenuidade e menos matemática quando se trata de emoções, se faz favor. And that’s all

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Golpe

Como posso tão facilmente esquecer um golpe na minha mão? Golpeado por mim, num vidro que não me lembro de reparar na sua existência senão após deixar de existir, um vidro que se despedaçou e infiltrou algumas das suas partes em mim, as quais se sobrepuseram na minha pele e fizeram uma elevação um tanto vermelha, que dói sempre que passo o dedo. Como pude esquecer tão facilmente tamanha pisadura que poderia ter comprometido o meu futuro, isto nem mais, nem menos, pela simples razão de ter golpeado a mão direita, com a própria força que o braço direito impulsionou ao seu vizinho de baixo, uma mão tão pequena, de pele enrugada, pouco típica para a minha idade. São dezanove anos, são marcas de algo genético que se espalhou pelo meu passado, são marcas iguais às de um familiar meu. Como pude fazer que tal coisa pudesse passar tão despercebida como o minuto que queremos infalivelmente perceber como se processa a sua passagem, mas que, quando olhamos, já é tarde demais. Como isto aconteceu? Que se passou comigo? Quem sou eu? O que é que eu fui fazer? Não duvido de que estas perguntas passaram por mim, as quais não consegui prontamente responder. Muito menos agora, pois há questões que foram feitas para serem respondidas por intuição, sem deixarem qualquer indício de certeza e demonstração. Não vale a pena rebuscar pelo vidro, porque ele já não está lá. Agora, está um novo, ou, se calhar, não parti aquele e aleijei-me noutro sítio qualquer, porque não consigo evitar a dor. Mas consigo apontar de antemão para o sítio onde as gotas de sangue caíram, e consigo lembrar-me da minha mão ensanguentada, e do meu corpo que levitou momentos a seguir. Qual espanto é o meu agora, ao aperceber-me de parte da minha consciência na altura, mas não quero partilhar isso, poderá confundir o leitor e causar demasiadas expectativas ao que pode ser apenas um pensamento retrospectivo do que aconteceu, com um pouco de imaginação à mistura. E é que nutro tamanho gosto pelas palavras, mas são sempre elas que me deixam ficar mal; mesmo o meu silêncio que parece inofensivo, leva sempre com ele os pensamentos dos outros. Mas, afinal o que é que quero? Quero primeiramente continuar a escrever sem realizar um único parágrafo, porque um único que seja influenciaria o meu movimento de pensamento, eu sei disso. Mas o que quero? Perguntem-me o que quero? Quero que o fim do mundo não seja algo muito doloroso, e o fim do mundo é o fim do meu movimento como peça de engrenagem inútil de uma máquina. Quero que seja um final inócuo, cheio de surpresas, mas não quero esse final, nem para mim, nem para ninguém. Oh preciso de cozinhar, preciso de cortar cebola e chorar, preciso de só querer que os meus olhos deixem de arder, preciso de só querer apenas uma necessidade que seja tão básica, mas que demore imenso tempo a passar. Levaria imenso tempo até que alguém me convencesse a gostar de tomate e, talvez, os meus gostos alimentícios sejam a prova mais directa de que continuo a ser o que sou, mas que diferença faz aos demais que já não acreditam nessa mesma continuidade da minha identidade? Nenhuma. Nem para mim faz, pois faria alguma diferença não ser mais o que era? Tenho duas fotos, agora, aqui, pousadas sobre a mesa de jantar, sobre uma tolha verde com flores, manchada de vinho branco e outros sabores. Olho para as duas que estão num porta-retratos de plástico transparente, são fotografias do homem que amo, sim. Uma outra em formato Polaroid me cativa atenção, foi vítima de rouba por minha parte, o que não poderia dizer o mesmo dos meus sentimentos, esses nunca são roubados, são meus, propriedade minha, tanta quanto o meu corpo, isto tudo até prova do contrário. Fotos pousadas sobre a tolha verde, com flores e vinho branco, fotos que me trespassam a mente, e colocam sobre a mesa o presente. Hoje descobri que a foto Polaroid tinha algo mais para me dizer, hoje fez-me lembrar de um diálogo que parecia ser inútil num dia tão inofensivo quanto este está a ser. Esse diálogo trazia com ele uma missão, tal como uma mala de viagem que combina a mesma hora para ser trocada de dono por outra mala exactamente igual àquela, um negócio qualquer escondido. Ora este diálogo trouxe consigo uma mala vazia que eu transportei nesse dia, mas só a desenterrei hoje, estava lá uma arma bem guardada, e eu percebi a mensagem, mas demorei, uma vez que já passou mais de um ano até que voltasse a lembrar-me da mala. Peguei na arma e matei um bicho que se tinha apoderado de mim e que a pessoa da Polaroid se tinha apercebido. Nunca escrevi nada sobre ela, mas quero deixar em algum sítio, até não me importo que aqui seja, que tudo o que veio dela, foi bom, não consigo pensar em alguma coisa de mal que me tenha feito, porque nem sequer imaginar é possível. Espero que estes últimos períodos sejam como a mala que me enviou. São sinceros, e é tudo que se pode esperar da palavra de um homem. Talvez eu tenha percebido isso agora melhor do que nunca. Se a palavra de um homem tivesse sido verdadeira, por cima de qualquer egoísmo insensato, eu não teria golpeado a minha mão direita. Desculpa senhora da Polaroid, sei que isto te teria desiludido, peço desculpa, também, ao meu homem, sempre sincero comigo, mais do que com ele próprio. Um herói. Quero aproveitar ao máximo a minha estadia com ele, para que um dia mais tarde possa relatar os actos heróicos ao meu filho, seja ele quem for ou o que for. O golpe da mão tem uma história, tem um antes e um depois e, se eu escrevesse um livro, as primeiras páginas seriam para relatar um banho que dei ao meu corpo, no qual passei a maior parte do tempo a olhar para as minhas mãos mergulhadas na água, no qual o tempo foi dispensado para eu dar atenção àquela parte do meu corpo e só eu faço uma pequena ideia, melhor do que a de qualquer outra pessoa, daquilo que pensei nos momentos em que as visualizei. Agora a mão direita não é igual ao que era, de vez em quando sinto a dor de tudo, sinto um formigueiro que tento esconder de mim própria para que continue a passar despercebido o acto que não poderei nunca apagar. Não fui capaz de tirar uma foto à minha mão. Ainda não fui capaz, mas agora sou. Agora que escrevi que isto me passou tão despercebidamente como aquele minuto que queremos minuciosamente entender. Um dia destes, desenterro mais uma mala, um dia destes a justiça fará com que a realidade me permita entregar malas, sem que tenha de mexer coisa alguma. E agora tenho de ir, porque a minha vida marcou-me uma coisa para o minuto x, e o y tem de andar sempre a par, e não há nada mais natural do que isto. Sigo a minha viagem, como um viajante e que sorte a minha, que hoje vou andar sozinha de comboio, acompanhada com um livro e alguns leitores que ao mesmo tempo disponham das mesmas leituras que eu, quanto muito daqueles que estão anunciados pelo autor. E a solidão viaja de dentro para fora, e o mundo passa despercebido, tal como o minuto, o segundo, a hora, tal como estação de comboio, as pessoas, os cheiros, o fumo, tal como golpe, o meu, que não é direito na mão direita, que afinal não comprometeu o meu futuro.

domingo, 3 de julho de 2011

Só para lembrar que fui um quadro, num dia qualquer.

Os lençóis dançavam por cima dos nossos corpos, nós não reparámos, estávamos demasiado ocupados com o imaterialismo para o qual os nossos corpos trabalhavam forçosamente, não reparámos em nada, era tudo o que havia para dizer daquilo que fazíamos. Se outros olhos vissem, não teriam visto mais nada do que dois corpos a divertirem-se, a tentarem rebuscar algo e rabiscar no quadro, porque teríamos dado um quadro, um belo quadro por cima de qualquer cama, do qual pudessem traçar dois riscos para indicar outros corpos mais abaixo, outros corpos quaisquer de outra cama qualquer. O problema disto tudo, é que esta simplicidade intratável, porque é uníssona, leva-me ao céu. E depois, tudo parece dançar à minha volta. Nenhum problema acerca do realismo me preocupa senão aqueles que tenho que estudar. Sou feliz contigo e tenho nisso o meu maior realismo de sempre, seja ingénuo, seja meu. Seja tudo o que ele quiser, eu quero amar-te e, por isso, amo-te. Não pode ser vontade, não aquela universalizada, só pode ser a minha, que é muito mais importante que qualquer outra, sou sincera. Nada mais me aflige.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

David Hume e a Identidade Pessoal

Ensaio realizado para a cadeira de Filosofia do conhecimento I (1ª parte)


1 David Hume e as Percepções

“Todas as percepções do espírito humano reduzem-se
a duas espécies distintas que denominarei impressões e ideias.
A diferença entre estas reside nos graus de força e vivacidade
com que elas afectam a mente e abrem caminho para o
nosso pensamento ou consciência.”

Hume defende que na mente existem percepções e hierarquiza-as; divide-as inicialmente em ideias e impressões; as primeiras são pensamentos e, as segundas são as sensações, são os embates dos nossos sentidos com o mundo; relaciona-as: todas as ideias derivam de impressões, não podendo haver ideias sem impressões que lhes correspondam. Como as distinguimos? Hume responde que a distinção entre umas e outras é feita pelo grau de força com que se nos aparecem, ou com que são experienciadas (na mente), isto é, uma impressão será sempre mais vívida, mais límpida, mais forte que uma ideia, pois a ideia, que deriva necessariamente da impressão, terá sempre uma cor mais esbatida, mais baça, menos forte; a impressão seria a fotografia que alguém tira a uma paisagem, a ideia, seria o desenho que alguém faria dessa fotografia. De seguida, divide as ideias e impressões em simples e complexas: - Para Hume, as ideias simples ou impressões simples são aquelas que não permitem distinção ou separação, e concebe contrariamente as complexas, usando o exemplo da maçã que nela podemos distinguir ideias ou impressões simples, que são as de uma cor, de um cheiro ou de um sabor e complexas, a própria maça, a qual (como acabei de realizar) posso dividir em várias partes, simples e indivisíveis (que não podem ser desmontadas). Admite, ainda, que há uma grande semelhança entre as nossas ideias e impressões e que, a única diferença que pode encontrar subjacente a elas é o grau de força e vivacidade.
Hume, conclui que todas as impressões e ideias complexas derivam das simples, na medida em que para compreender as ideias complexas, disseca-as em simples e, se não conseguir identificar as que a compõem, tal não implica que não haja algo que as componha.
Posteriormente, Hume considera que, se as impressões precedem sempre as ideias, então não há verdades de facto, verdades necessárias a priori, pois tudo vem da experiência, - ninguém consegue transmitir a uma criança a ideia de vermelho, sem que esta tenha a impressão que lhe corresponde.
“Não podemos formar uma ideia
exacta do gosto de um ananás, antes de realmente o saborearmos.”
Mas, não é absolutamente impossível que existam ideias que precedam as impressões correspondentes e, para provar isto, Hume utiliza o exemplo das cores e dos seus cambiantes: é possível que, usando a imaginação, não tendo a impressão de uma cambiante de azul, por exemplo, consiga criar a ideia da cor que falta, combinando o mais claro que antecede necessariamente com o mais escuro que lhe sucede.
2 DAVID HUME E A IMAGINAÇÃO
Para Hume, a passagem das impressões para as ideias, pode ser feita de duas maneiras – ou conserva metade da vivacidade inicial, algo intermédio, ou perde totalmente a vivacidade da primeira, constituindo aquilo que ele denominou por ideia perfeita. É através da memória e da imaginação que as ideias e impressões surgem na mente; ao passo que as ideias da memória são mais fortes, mais vívidas que as da imaginação. (Hume constata isto, baseando-se na diferença entre o grau de dificuldade com que retemos as ideias oriundas da imaginação, e aquelas que retemos providas da memória.)
“Outra diferença, não menos evidente, entre estas duas
espécies de ideias é a seguinte: embora nem as ideias da
memória nem as da imaginação, nem as ideias vivazes nem
as ténues possam aparecer na mente enquanto as impressões
correspondentes não se anteciparem a preparar-lhes o
caminho, contudo a imaginação não fica sujeita à mesma
ordem e forma que as impressões originais; pelo contrário,
a memória sob este aspecto fica de certo modo presa, sem
qualquer poder de variação.”

A Imaginação tem a liberdade de poder variar, a memória não, esta é simplesmente a faculdade responsável pela organização das nossas ideias e impressões e pela manutenção delas exactamente como eram originariamente. O poder atribuído à imaginação é a prova, para Hume, da existência de ideias complexas, pois só com a possibilidade de separá-las, a imaginação consegue criar novas ideias sem impressões, directamente, correspondentes; afirma, também, que existem qualidades do pensamento por detrás desses processos de associação, sendo elas de semelhança, de contiguidade no tempo e no espaço e da relação causa e efeito. Ora, neste presente ensaio, recorrendo à explicação breve do meu entendimento sobre a teoria Humeana relativa aos assuntos anteriormente descritos, pretendo descrever a forma como cheguei às minhas objecções, de maneira a que a leitura faça associar, através de algumas destas qualidades do pensamento, as ideias e as impressões que se me decorreram daquelas que interpretei ao ler O Tratado da Natureza Humana.
3 OBJECÇÃO
“ E agora pergunto se
será possível essa pessoa, usando a sua imaginação, suprir
esta deficiência para alcançar a ideia dessa cambiante que
os seus sentidos jamais lhe transmitiram? Julgo que poucas
pessoas serão de opinião que não é possível, e isto
pode servir de prova de que as ideias simples nem sempre
derivam das impressões correspondentes; contudo o caso
é tão particular e tão singular que quase não vale a pena
notá-lo e não merece que, só por causa dele, modifiquemos
a nossa máxima geral.”
Debruçando-me sobre este caso particular, parece-me que o filósofo utilizou um exemplo muito conveniente, deixando de lado todos os outros de maior pertinência. Neste, Hume apresenta a possibilidade de uma pessoa que tenha o sentido visual em condições normais e tenha gozado dele durante trinta anos, que reconheça todas as tonalidades de cores possíveis, excepto uma cambiante de azul; para ele, seria evidente que a pessoa, usando uma das faculdades mentais que permite impulsionar as ideias e impressões na mente, conseguiria descobrir a cambiante que falta, sem nunca ter tido a impressão dela. Parece-me que Hume, com o exemplo acima, pretende provar a existência de ideias simples sem impressões que lhes correspondam, não obstante, acaba por afirmar que a Imaginação é a responsável criadora delas, associando outras derivadas das impressões; logo, se assim o é, Hume não prova a existência de ideias simples sem impressões, mas sim, da existência dessas sem impressões que lhes correspondam directamente. No entanto, a meu ver, há exemplos bem mais pertinentes que justificam a alteração da máxima geral - até porque, dentro de uma cor (considerada ideia simples), consigo dissecá-la noutras cores, nomeadamente as que compõem a primeira, – neste caso, o azul mais claro e o mais escuro respectivamente que conheço, misturados, - sendo assim a quê que poderemos atribuir a designação de ideia simples?
- Quando passo na rua, adquiro imensas impressões de paisagens, cheiros, cores e, sobretudo, das pessoas que passam. Ainda que tenha a ideia da cara de um indivíduo/ser humano (ideia simples), com a impressão que lhe corresponde, e, ainda que muitas das caras que vejo me passem despercebidas (pela quantidade e distracção da minha mente) e, ainda que consiga ter impressões indirectas de todas as caras que vejo diariamente, não consigo perceber o meu espanto sempre que me cruzo com alguém novo. No mesmo seguimento do exemplo da cor, eu deveria, através da Imaginação, criar caras diferentes, não obstante, ainda que consiga criar algumas (conseguindo sempre identificar as ideias ou impressões que lhes correspondem indirectamente), há vezes em que me espanto, por estar a ver algo que nunca tinha visto antes. Ora este exemplo pretende mostrar que podem existir ideias sem impressões precedentes indirectas, ou eu de certa forma deveria aperceber-me delas, assim como consigo identificar cada ideia simples contida na ideia complexa que faço derivar por Imaginação.
Mas eu já tive tantas impressões de indivíduos ao longo da minha vida, então, por que razão crio continuadamente impressões novas e diferentes, ideias novas e diferentes, daquelas que tinha inicialmente? Será porque não descobrimos todas as ideias simples subjacentes ao conjunto que é o indivíduo, ou então porque estas são variáveis pela existência real e concreta de várias identidades, pessoas, incluindo a minha? A nenhuma maçã concebo ideias simples de natureza diferente, mas ao indivíduo sim. Ora é verdade que para toda a cor, Hume propõe um padrão, e é verdade que há um padrão para todas as caras, sem embargo, quando o filósofo fala de tonalidades, então distancia-se do padrão original (de azul), e percorre, à mesma escala, as variações dessas, caras várias no meu exemplo. E eu consigo nessa cara nova dizer que ela faz parte do padrão que defino ser um ser humano, contudo isso não é de todo uma impressão indirecta para aquilo que tive, pois não a criei na minha mente, através da Imaginação. Logo, aquilo que a pessoa do exemplo Humeano cria é a tonalidade e não, de novo, o padrão, havendo, desta forma, ideias que parecem não ter impressões (directas ou indirectas) precedentes, exemplos mais pertinentes capazes de alterar a máxima.
Carla Lopes, Faculdade de Letras Universidade do Porto

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Meu querido amor:

Escrevo da janela do teu quarto, porque agora não me sinto sentada no teu cadeirão preto sisudo, sinto-me fora a olhar para o céu, para a grande cor que me ensinaste a ver desde que te conheci, olho para as árvores, para o sol que se põe atrás delas a medo, para traduzir o que vem de lá de fora que cai em mim sob formas que desconheço (pobres olhos). E eu não sei se o que vem lá de fora, vem cá de dentro, nem sei, muito menos, se o que as minhas mãos escrevem é o amor que elas sentem pelas tuas e não o que as outras partes sentem. Não sei nada disto meu amor, nem sequer o que me apetece escrever a seguir, nem o que faz a vontade de fazê-lo, mas sei que gosto de sentir o teu cheiro, e de todas as vezes que cheiro a tua roupa que carinhosamente dobro, ele é sempre o mesmo, a minha memória está impregnada dele e, se ela fosse um quarto, teria o teu perfume, ou mesmo um palácio, ou até mesmo numa parte do bosque com que sonho vezes sem conta, e, mesmo sonhado, sem ser um jardim muito bem arranjado, com as plantas geometricamente descritas sobre o plano, é sonho, não é bonito e é sonho, cheira a ti e não tenho nariz naquilo que silenciosamente penso.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dentro do meu cérebro há um quarto, com pouca luz, muito pouca, no qual está uma réplica minha sentada no chão, acorrentada à parede, no chão estão migalhas cheias de bolor, já cresceram ervas daninhas à minha volta, alguns cantos cheiram a urina, que me anestesia para que adormeça sem pensar, de vez em quando aparece um homem, qual besta sisuda que me diz poder escolher entre migalhas com bolor ou coisa nenhuma, e são todas iguais, todas do mesmo tamanho, com a mesma doença e eu digo-lhe incessantemente que não consigo escolher, e ele diz-me para o fazer e bate-me para que acorde (ou adormeça de uma vez), eu escolho uma migalha qualquer, ou melhor, que penso eu ser qualquer, quando a besta sabia que era exactamente uma qualquer, porque nesta vida não há importâncias maiores, nem nesta, nem em nenhuma.
Mandei uma carta ao pintor, queria partir-lhe o quadro na cabeça, abrir-lhe a cabeça, chupar um pouco do seu sangue, e dizer-lhe que a sua obra me mete nojo, às vezes, porque é só às vezes que eu não gosto do mundo, nem das suas cores. Algumas pintas de sangue mancharam a tela, e eu criei uma nova cor no meu mundo, acidentalmente, e, acidentalmente, fui assassina durante cinco segundos. O céu do quadro ganhou uma tonalidade avermelhada, assim que espalhei com o dedo algum do seu sangue, que me importa se o criador morreu? A partir do momento em que algo é criado, tem de se deixar ir, como uma mãe que pariu um filho, e o mundo já está há muito tempo sem alguém, o pintor anda ocupado, mas eu não, sempre posso actualizá-lo dentro de mim, mas a besta não me larga, besta sadia que me acorrenta dentro do quarto, com pouca luz, junto a mim, desde que nasci. Quero estar dentro do meu útero, pinta-me isso, por favor, qual será o cheiro dele? Deve ser fascinante ficar durante anos no mundo adormecido, dentro de alguém, à espera de uma ordem para viver, deve ser fascinante ficar calado, cúmplice desta merda toda, deve ser fascinante ouvir a voz da mulher onde se encontra alojado sem nunca a ter visto, “que será ela? Uma besta? Às vezes parece uma, outras parece não ter sexo, às vezes ouço mais vozes do que a dela, mas outras estão mais perto, algumas mesmo perto de mim, a dizer “amo-te” ofegantemente, outras parecem dela, às vezes ela fala com ela própria, besta estranha, que coisa mais estúpida.” Um útero tem cérebro certamente, quanto muito partilhará do meu e saberá que sou uma ela e terá a mesma língua natural que eu. Tanto pampsiquismo para apagar esta solidão! Parabéns escrivaninha, parabéns papel, parabéns caneta, que vivas muitos anos, que tenhas muita saúde, que sejas feliz! …Por que não deste tu consciência a estas coisas? Gostariam elas de ouvir este discurso mundano? Pintor, achas que gosto de ouvir esta merda? Que escolha foi essa a tua, meu caro. Eu desculpo-te, eu desculpo-te! Para não bastar, ainda me desta esta coisa ridícula chamada perdão, que muito sinceramente, ainda foi pior criação que a da consciência, ai pintor, que deste a esta tela dimensões demasiadas.
Vai com o quadro lá para fora, está partido, agora sujo de sangue, vai lavá-lo na chuva fria que cai lá fora, ninguém vai sentir nada de diferente, enche a tigela de sopa à rapariga que morre de fome, dá moedas ao toxicodependente que apenas deseja que lhe desenhes mais uma dose, molha todas as caras, vai apagando o mundo, ninguém notará pela sua falta, afinal o mundo está sempre em constante mudança, apaga o desenho, desenha por cima, toda a gente diz que mudei e a culpa foi tua, estás sempre a desenhar-me formas em cima, vai pintor, de quadro encaixado no sovaco, como eu encaixo todos os livros de filosofia, vai pintor, que me deves uma, não percas tempo!
Desce a rua, aninhado com a tua obra, não olhes para o lado, podes ver algo perfeito e não convém, muda a tua obra, desaparece e reaparece sob a forma que desejarias, e, se desejares ser forma, jamais estarás sobre ela, serás servo dela, acorrentado às paixões, como cada homem que vai segurado ao barão do autocarro, uma tentativa árdua, por vezes nem tanto, de se manter equilibrado, enquanto não se ocupa de coisa nenhuma, calca cada paralelo do soalho, eu gosto de calcar alguns, penso no sabor que terão de tantos pés terem passado, serão estes só para calcar? Terão as ruas algo para nos dizer? É que quando vou sozinha a caminhar, certas ruas mudam o meu pensamento, este caminho idiossincrático das ideias deve ser despontado por algo e, muito sinceramente, creio que seja a minha acção física. Por isso, querido criador, vai dar um passeio, refrescar as ideias e espera que a tua inspiração venha, que a minha não está para breve.

domingo, 24 de outubro de 2010

Desenhou-lhe um triângulo na testa, depois de se terem satisfeito mutuamente. Desta vez, o sangue não estava explícito, mas corria nas veias dos seus dedos. O silêncio fez eco naquelas paredes, e propagou-se no corpo, da mesma forma que se propaga no Universo, viajou para lá, encaixando-se no vácuo onde ficam as coisas que não se libertam. Já tinham saudades de ver diminuir a distância que os une, e, unidos pelo mesmo desejo, viajaram sobre a matéria, encontrando o espírito. Depois de o encontrarem, sentaram-se ambos num cadeirão verde-escuro, qual posição de observador ideal, e vislumbraram o sentimento; eles não se lembram de terem visto coisa alguma, mas sabem que viram, qual piratas que avistam a terra ao longe, qual crianças que se saciam com a resposta de um adulto. O pecado não lhes sabe a maçã. A nenhum mortal, o pecado lhe sabe a fruta.
Numa noite igual a esta, ele desenhou-lhe um triângulo na testa, proferiu as palavras mágicas, que afinal são meros meios para atingir a intenção, abraçou-a e puxou-a para ele, encostaram-se nelas e dormiram nas palavras; de repente, mais frases se juntaram ao contexto. Ele não gosta de frases, gosta de ver; ela não vê, pensa. Ele pôs a mão no ventre dela, exausto. Ela virou-se, fechou os olhos e fingiu não pensar.
Retomando a primeira noite, eles satisfizeram-se mutuamente, pela segunda vez. A matéria torna-se fácil de descobrir, quando o interesse passa a ser o desenho de três lados. Satisfizeram-se mutuamente, pela terceira. E, ainda que a sucessão dos dias continuasse a sua tarefa, tal como no relógio, a viagem é sempre a mesma, a deles também o é (mas não há memória dela). Ele voltou a desenhar-lhe um triângulo, e ela espantou-se da mesma forma que o fizera nas outras vezes anteriores, sem o saber. O amor dura mais do que aquilo que pensaram. Ao satisfazerem-se pela quarta vez, imaginaram a matéria da felicidade, e, considerando que esta tem curvas, seria algo parecido ao símbolo que os humanos convencionaram para denominar infinito. Este jogo ridículo e ondulante, do “entra e sai” das fases que os engolem como carnívoros esfomeados, esta forma de movimento que não os move, que os remete para um não-lugar, esta utopia desenfreada, não pensa em finais, caso contrário, o que as faria continuar?!
O final foi sempre diferente e, com eles, foi ao contrário.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Notas

Até ontem olhava para a meteorologia com desdenho, hoje compreendo-a, hoje faço pré-conceitos do tempo que vai fazer amanha, chego, inclusive, a aperceber-me das formas geométricas que, há uns tempos, alguém me havia dito que aconteceria, exactamente após a experiência estética que tive, num dia de chuva como este, - hoje não choveu, mas há algumas propriedades neste dia que me fazem identificá-lo desta forma. Amanhã sei que vai fazer bom tempo, pelo menos, tanto tempo quanto a minha mente quiser, durante o tempo que penso nas horas de há bocado. Acho que as verdades universais são percepcionadas pelo Homem, quando este não pensa, e, por pensar, neste preciso momento, sobre a verdade que as sustenta, digo “acho”, se dissesse com certeza, negaria a minha própria tese. É, de facto, essa mistificação do acto pleno de não pensamento, no qual o espaço e o tempo são postos no armário, as memórias se evaporam, o corpo treme, e tudo o resto que acontece, são processos naturais e físicos apenas -, quero com isto dizer que, o conjunto das transformações físicas que decorrem de um acto mutilado de pensamento, jamais poderão, a partir daquele momento, serem lembradas ou analisadas. É como se tudo o que se percepciona, de repente, deixasse de ser questionável, ou pensado, é apenas sentido. Digamos, portanto, que é um corpo que sente, e não um ser que também é corpo.
Diria que as verdades que procuramos não são impossíveis de encontrar, na medida em que há essa possibilidade, mas, quando a há, nós estamos incapacitados de a percepcionar, de a traduzir. Sabemos que a mesma energia que nos abraça neste momento, é exactamente equivalente à resposta que procuramos – daí o amor ser tão valorizado em nós, racionalmente dotados.
Hoje, apercebi-me da geometria das coisas, como verdade última de tudo o que existe -, imaginem um espaço amplo, um ponto no meio desse espaço, uma linha de comboio encostada (a desenhar formas estranhas no mundo), comboios que passam regularmente, informando-te (sendo a única maneira) de que o tempo passa, porque vês de fora, como um observador ideal, algumas luzes que se acendem e apagam, tentando transmitir algo, ainda que a sucessão temporal, de um comboio para o outro, seja a única prova de que o tempo passou. Olhaste timidamente para o relógio, um pouco assustada certamente, achavas que se tratavam de anos, quando no mundo real significaram apenas minutos. Junta mais um mundo ao plano. Vês o quadrado?! Vês quadrados, rectângulos, linhas paralelas, corpos paralelos cantando em uníssono, eu diria mais, vendo em uníssono.
Estou transpirada, vi tanto hoje e cansei-me, “às vezes a beleza é tanta que penso não conseguir aguentá-la”.

domingo, 10 de outubro de 2010

dez do dez do dez



Às vezes, antes de adormecer, imaginava que pousava os olhos na mesinha de cabeceira, ao lado dos livros que me impuseste, dos lenços de papel que substituíram os carinhosos lenços de pano, do candeeiro preto e branco que ilumina um quarto daquilo que normalmente está sempre escuro. Pousei-os dentro de um copo com água para não secarem, seria, certamente, para já, uma imagem bem chocante vê-los secos e apagados, agito-os, - bem, para esta imagem não preciso deles, para os ver nunca precisei, para ver o que está dentro deles, jamais…
Nunca disse a ninguém, mas o revólver continua lá, na gaveta da mesa ao lado da cama, e o limão, esse, já apodreceu, foi parar ao copo do álcool que bebeste, e não me contaste. E, se os meus olhos estão sobre o tampo que protege a arma, estão acima dela, vêm o sangue que me fizeste derramar por já não pertencer a nenhum braço humano carinhoso que me viu nascer.
Imaginar-me sem olhos, não é estar cega, é simplesmente saber que guardei a visão noutro sítio. À noite, todos a guardamos, ainda que seja por algumas horas, numa dimensão cinzenta, descansamos os sentidos que o pensamento ousa estimular. Quando não tinha olhos, tinha infância. Adorava a metáfora que o meu pai repetia inocentemente, aquela em que ele fazia de conta que retirava um olho – fazia um barulho com a boca, abraçava o olho com a mão, e fazia um gesto que parecia retirá-lo; depois fechava a pálpebra, e eu ria-me. Sabia tão bem que era impossível, não a parte física da questão, mas aquela em que a omnipresença vê, julga e não perdoa. Fazer de conta que se esquece, é não esquecer e não esquecer é cremar a possibilidade de perdoar.
Espero ser capaz de deixá-los sempre de lado. Às vezes, o tempo dava-me a esperança de que me guardava uma mesinha especial, com um sítio destinado aos meus olhos. Outras vezes, guardava-os numa mesa normal, como aquela que tenho agora.
Quero um ramo de flores, que viva ao lado da caixa dos meus óculos, quero que as suas raízes entrelacem a arma e dificultem o seu uso, e, que da próxima vez que tiver que a usar, encontre algo mais do que apenas uma bala, e sempre a mesma. Quero uma gaveta que guarde os cheiros das pessoas que gosto, quero que na vigília, aquilo que não posso trazer dentro de mim, fique comigo quando morrer. Prometo agradecer-te bem pelo pensamento que me deste. Quero uma pedra simples e bonita. Quero um poema que goste. Quero um sítio com flores. Não me quero ir embora, mas quando for, quero isto tudo.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Is this desire - Pj Harvey









Ele disse que não estava assustado, quando sabia exactamente que o sentia, mentia para realçar a sua verdadeira natureza, - de facto, ele era demasiado fraco para o afirmar directamente e, como todos os homens, procurava uma maneira mais subtil de o fazer, uma em que só se pudesse sugar a verdade em retrospectiva, da mesma forma como só se pode sentir alguma felicidade: a primeira fica no momento, depois evapora-se; a segunda transforma-se numa sensação e a terceira é criada noutro formato para depois ser recordada.
O sol estava a pôr-se e Joseph descia a montanha com Dawn e, à medida que desciam, o dia entregava-se à noite, saía do trabalho para oferecer dignamente o horário à outra, enquanto estes dois escalavam a montanha ao contrário. Tudo parecia ter sido ensaiado antes, e, sem nunca o terem feito antes, desciam e desciam cada vez mais; Dawn não queria, como todas as mulheres não querem, Joseph sorriu-lhe um sorriso de segunda-feira de manhã, pronunciou-lhe o som do silêncio ao ouvido – chhhh, acalmou-a, distraindo-a com o som, agarrou-lhe nas pernas e continuou a descer.
Dawn questionava-se diariamente sobre o desejo, embora aos domingos à noite fosse de forma mais intensa, e de menor intensidade quando estava com Joseph, Dawn procurava saber a quantidade da palavra existente, e aquela que ambos conseguiam atingir. Ela perguntava-se sobre a montanha, sobre a temperatura do dia e da verdade acerca do olhar misterioso de Joseph. Dawn sabia que enquanto o sol se vestisse, nada de errado aconteceria e o desejo ainda poderia subir mais alto, o pior, pensava ela, era quando o dia chegava à noite e ficava frio, como conseguiria ela saber se poderiam descer mais alto?
Joseph já sabia da verdade acerca do outro, que passa pela verdade de nós mesmos, e pelo facto de nunca revelarmos ao outro, aquele que conversa dentro de nós. Ele sabia que a intimidade não subiria mais alto, enquanto não revelasse a Dawn os seus queridos e inócuos monólogos. Pena que Dawn ainda se pergunte se é possível descer mais terreno, quando para Joseph, uma vez ambos no mesmo sítio, a montanha já acabou. Enquanto este se questionava sobre a beleza da sua descida, Dawn desacreditada em qualquer tipo de beleza que fosse sua, tremia com o frio que a noite deixava.
Um pequeno peixe perfurava-lhe o corpo, Dawn sentia um frio diferente, até porque sabia não ter precavido qualquer tipo de temperatura, fechou os olhos e sorriu. O maior desejo tinha-o ela sentido sozinha. Um filho nos braços meses depois, um filho nos braços anos depois, um filho nos braços séculos depois. Joseph não ficou mais do que dois dias. Tanto tempo depois, apenas uma parte de Joseph sobrevivia no mundo exterior, ainda que muito diferente da que se alimentava de Dawn.
Dawn caminhava sozinha sobre a montanha, as vezes já eram muitas, já não escalava, já não fazia perguntas, já não se assustava. O sol também já não se vestia para a floresta, e ela já não queria saber do frio, nem do calor, nem de Joseph.















(Texto baseado na canção Is this Desire de PJ Harvey)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

30 Fevereiro 1969

Soprei direccionada para a vela, que não apagou com o primeiro abafo, nem com o segundo, e, depois do terceiro, o mundo ficou escuro, respirei o cheiro da casa, do meu quarto que ao tapar o meu sentido mais nobre, encheu-se de força e privilégio o olfacto; mas este não era um sítio físico que existisse concretamente no espectro temporal de agora, era imaginado, sonhado, e, como idealizado à luz do dia, pensei ter sido talvez uma previsão do futuro. A única coisa real deste texto, é a escuridão, como gosto de navegar nela, de tactear as coisas resguardadas silenciosamente, porque tudo o que é tapado é mais calado do que as outras coisas, como adoro procurar com as mãos o que é meu, e calhar acidentalmente noutras. Sou agora uma sombra, disse-me ela, completamente embriagada, por isso, apaguei a luz e toquei-me, senti-me, não vi mais sombras, não vi mais nada. Assusta-me de morte saber que deixo correr o rio, mas longe, assusta-me de morte não ver o luar porque silencio o que me dói, dormindo, assusta-me estar sozinha, assusta-me de morte estar sozinha porque disfarçadamente me levo para os cantos, para os becos.
Não posso acreditar que sou realmente boa para ser amada, da mesma forma que sei que sou capaz de o fazer, e, por isso, apago a luz, metade de mim não se vê, a outra metade, só tocando, fica uma cá dentro, essa que não consigo tirar mas escondo, guardando o dia para a libertar. Como posso querer liberdade se nunca parei para me libertar? Lembro-me vagamente de uma vez. Não está nas mãos dos outros, está nas minhas que quebram o silêncio tacteando as teclas e escrevendo o que o um menos dois de mim pensa sem falar. Tenho mãos pequenas, muito pequenas, sempre tive, sempre fui pequena…
Já não me dizem nada há muito tempo, cada vez mais as palavras se têm associado ao escuro para mim; é que já raramente entram algumas que me façam deixar passar a luz. Quero nadar nua mais uma vez, sentir que o meu corpo é culpa da natureza e que esta não se queixa do que faz; quero sentir de novo a harmonia a entrar-me, esticar os braços, enquanto me equilibro na beira do tanque, poder cair e sorrir ao mesmo tempo, encher o peito, mostrar-me ao céu, às arvores, aos animais, ao vento, deixá-lo tocar-me, sem o amar, deixá-lo fumar-me, gastar-me, deixá-lo mexer-me no cabelo, quem sabe a minha próxima companhia foi parte desse ar, desse oxigénio. (Pois não quero companhia nenhuma)

sábado, 26 de junho de 2010

22 Junho 1993 São Pedro do Sul


O vómito de céu já não era escuro, algumas manchas claras começavam a aparecer na imensidão, bem por cima de mim, penetravam lentamente, sem se mostrarem, porque os meus olhos não conseguiam definir o momento inicial, nem os outros que se iam acumulando como os maços de tabaco que um fumador compra, nem o último, que só o situei após alguns minutos do dia ter aparecido. A memória é assim, em alguns arquivos é sempre dia, a claridade é tão vasta, e eu não dei por ela a entrar, nem pelo tempo que passou, nem pelas seguintes que se sobrepuseram, não dei por nada. Gosto de ver o amanhecer, porque não o compreendo; ontem não me deixei dormir, permaneci de olhos bem abertos e ocupada, desejei ver o sol a nascer, calculei mais ou menos a hora, sentei-me cá fora, no cimento, de pernas cruzadas, respirei fundo e preparei-me para tomá-lo com toda a atenção que tenho, distraída, porque esperava, cheia, pois estava sozinha, com uma câmara fotográfica pronta a roubar uma imagem, duas, da natureza que acabava de dar à luz. Começaram a aparecer fendas no céu, até que os meus olhos conseguiram ver mais longe, até eles serem capazes de definir coisas à distância, como era normal. Eu adoro aquele céu. A mim devia-me este amanhecer, devia-me nadar nua no tanque, no rio, sentir o meu corpo em comunhão com a água, sentir-me, dar olhos a todas as minhas partes, sentir-me mulher, parte das árvores, da água, dos pássaros, das plantas, das nuvens, a mim devia-me tudo isto. A mim devo-me toda a vontade que tenho.

terça-feira, 11 de maio de 2010

...

Arrasto a vergonha pelo caminho, como as migalhas do pão com bolor que caem da mão pisada de uma criança infeliz que procura perder-se, eu não me quero perder, mas arrasto-a, deixo uma mancha incolor no vómito azul do céu, que ninguém vê mas sente-se; eu pelo menos sinto, tanto quanto a quantidade exacerbada de pensamentos que nos trespassam na rua, meus, teus, de todos os transeuntes nauseabundos a pecado; se a alma fosse como o corpo, sentiríamos uma picada, na qual a sua intensidade variasse segundo a profundidade de cada ideia que apanhamos, mas não o é; e, não o sendo, como é possível conhecermos uma maneira comum de a destruirmos?
É verdade que qualquer ser vivo racional ao passar por um mesmo sítio teve o mesmo pensamento, quiçá alguns não se apanhem pelo passeio, quiçá o homem bonito de meia-idade não estará a pensar em matar o patrão, em segurar o revólver que delicadamente guarda por baixo da sua travesseira, quiçá já não o usou, quiçá o que está por baixo da sua cama seja pura e simplesmente um mero prolongamento do inconsciente, oh deus, sabe-se lá o que por ali vai…mas também ninguém quer saber. Cada centímetro de algodão puro alberga milhares de sonhos, já nas nuvens, sempre que ficam molhadas, albergam o período fértil da mulher que abrange quase toda uma vida de um homem, e, no fundo, o medo.
Vigio o homem, sentei o meu corpo no banco de rua com mais história que a bíblia, encostei-o bem, desfoquei a visão, estava agora a atravessar para o outro lado, estes já não focavam o homem, mas a cor garrida que este libertava, vi a sua alma a dançar, a minha estava apenas a assistir ao espectáculo; é assim que gosto de estar, era assim que preferia ficar a minha vida toda, gravava o som do meu coração numa cassete, enfiava-a no meu corpo, fazia-me viva, mas saía de mim. Gostava de me ver. Não quero homens de meia-idade, não quero.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

Eternal sunshine of the spotless mind

Joel: I can't see anything that I don't like about you.
Clementine: But you will! But you will. You know, you will think of things. And I'll get bored with you and feel trapped because that's what happens with me.
Joel: Okay.
Clementine: [pauses] Okay

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Non, je ne regrette rien

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié,
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs,
Je n'ai plus besoin d'eux!

Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro...

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!

Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies,
Aujourd'hui, ça commence avec toi!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Mesecina


20 de Abril de 1992


“Falta cumprir o Sol.” – Foi o primeiro e o último objectivo que escrevi delicadamente no meu caderno vermelho de papel grosso, cheirava tão agradavelmente bem que conseguia reter a parte fragmentária do cheiro que fica no cérebro, durante largos e meticulosos segundos sem pensar na frase que acabara por, inconscientemente, me obrigar a executar.
Às vezes, comparo o meu nariz, e outros instrumentos corporais, a uma máquina fotográfica que rouba pedaços da natureza e transforma-a em informação um tanto bidimensional para eu, ser humano, fazer juízos de valor quanto à amabilidade da coisa.
Já lá vai quase uma gravidez de tristeza e, ainda sem ter parido algo que se notasse, algo que pudesse condicionar a minha vida toda, vou procurando viver cada dia sem grandes enjoos. O sangue do meu cálice não é divino e, por isso, devo procurar o astro rei sozinha. Se o meu filho não se virar contrariamente ao meu sentido de gravidade, se o meu corpo não preparar, passo por passo, todas as condições naturais de um parto, como conseguirei viver a um aborto?!
A lua há-de cumprir-se, um dia, e, sem que note, trará a morte do meu pior lado simétrico e o acasalamento só com uma das partes.


A hibridez termina às seis e quarenta e nove minutos da manhã.


Apontamentos novos

domingo, 28 de fevereiro de 2010



Já não havia indícios de luz natural cá fora, apenas um conjunto de candeeiros de rua antigos iluminavam e, arduamente, aqueciam o frio que se tinha instalado. Era Inverno, Alice procurava desenfreadamente pelo seu telemóvel, como o fazia sempre que chegava a casa, na esperança de que alguma coisa, naquele aparelho insensível, indicasse com certeza o que poderia acontecer, assim que entrasse na porta velha de ferro. E, em silêncio permaneceu o instrumento tecnológico, sem nada que fosse importante de se mostrar, voltou para o seu sítio inicial. Com medo, Alice entrou em casa.
Esperava-lhe um ambiente falso, mas quente – “Vá lá que ao menos está quente cá dentro” – pensou. “Menos mau”, e continuou na sua forma desconfortável de todos os dias pousar a sua mochila e cumprimentar os seus pais. De facto, o seu irmão era a única pessoa com quem se sentia estranhamente confortável, dada a sua semelhança incandescente que ele tinha com o seu pai, mas este de forma muito mais infantil, era suportável. Sentava-se no quarto, na ânsia de possuir um pensamento diferente do que o que lhe era habitual apercebe-se de que não tem nada melhor para fazer, o prazer que sentia nas coisas tinha desaparecido. Nem mesmo tentar acções que lhe faziam feliz, lhe davam satisfação. Estava doente. Não obstante, prosseguiu no seu mar das coisas, afinal o pior já tinha passado e não queria voltar a pisar o caminho dos fracos.
Abriu o “Processo”, e, não lendo, imaginou a leitura à sua maneira:
Tio do josef k: Mas meu sobrinho, com um processo desses como podes reagir dessa forma??!

Josef K: De que outra forma poderia reagir, meu tio? Fui apanhado de surpresa, e, sabendo que nada tenho a ver com isto, continuo neste mar das coisas, rio-me para dentro, mas vou com eles, não me apetece reivindicar uma coisa com gente que não pensa como eu e que não vai lá por mais palavras que discutamos, de que me adianta? Eles têm mais poder do que nós. Vou esgotar-me?! Não, vou viver-me...para dentro, na minha própria liberdade.
Subitamente, Alice soltou um sorriso. Josef K. sabia exactamente o que ela pensava, ele compreendia-a.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

13 de Fevereiro de 1992

Alternava de forma aleatória os pés, como me fora ensinado em criança; respirava com dificuldade cada cheiro (mais pesados que os outros) sobre a brisa que dava chapadas frias nas caras pecadoras, fitava com desdenho cada imagem, sem as estar a ver na realidade, desfocava-as e dava-lhes movimento, o meu movimento. Era mais solene do que aquele que qualquer outro ser humano podia visualizar e, por isso, a qualquer outro não chamava a atenção.
Tropecei numa rocha mal colocada, corri um bocado com a ansiedade de acelerar o processo, rodei o meu corpo e foquei um banco castanho e triste, sozinho e anestesiado com o cheiro a urina que o ar trazia para perto dele. Sentei-me numa parte que considerei limpa, após vários segundos de análise, sosseguei-me e parti. De repente, fiquei petrificada, apenas o corpo não se mexia, porque o resto estava completamente ligado, deslocadamente do mundo.
Sorri ironicamente, pois estava a ter um prazer que mais ninguém conseguia ver. Via imensas pessoas que conhecia correrem a alta velocidade, na minha direcção, a rasgarem-me a carne (que não me doía) e a entrarem-me dentro. Senti a força de cada uma delas e, mesmo assim, sentia-me fraca. Nada resolvia esta minha loucura consciente, nada parecia conseguir libertar-me dos momentos que pareciam eternos, vividos a dois, comigo.
A mesma não vontade de aqui estar persegue-me desde o belo dia em que nasci. Tecnicamente, esse dia ainda não chegou, pois faltam precisamente dois meses e oito dias, para que me obrigassem a vir. Com ventosas coladas ao meu cérebro; puxar-me-iam, até que conseguissem arrancar-me do ventre da minha mãe. Talvez, tenham tirado a pessoa errada, ou, então, algo de mim ficou lá e não veio.
Acendi uma vela e apaguei as luzes, sentei-me perto dela, não muito para que o ar que expiro não a matasse, contei-lhe um segredo a uma certa distância, fechei os olhos e, mesmo assim, o calor continuava igualmente excitante. O fogo não discriminava os meus assuntos mais profundos, nem me envergonhava perante uma existência vergonhosa e hostil.
Nunca soube escrever sobre isto, sobre o que vou dizer a seguir: Tenho saudades de o ter comigo. Vou aprendendo a viver desta maneira, com alguma aversão a respirar e a realizar cada ponto da minha desmazelada rotina, vou acendendo de vez em quando uma vela para me lembrar de alguém sem problemas em estar comigo, a três. Vejo-a apagar, vejo o seu fumo a ir embora e lembro-me de gozarmos com os sinais de fumo, quando queríamos comunicar. Vou pondo no meu presente, o passado e, não gozando o futuro, vou fazendo da história um tempo morto…