Arrasto a vergonha pelo caminho, como as migalhas do pão com bolor que caem da mão pisada de uma criança infeliz que procura perder-se, eu não me quero perder, mas arrasto-a, deixo uma mancha incolor no vómito azul do céu, que ninguém vê mas sente-se; eu pelo menos sinto, tanto quanto a quantidade exacerbada de pensamentos que nos trespassam na rua, meus, teus, de todos os transeuntes nauseabundos a pecado; se a alma fosse como o corpo, sentiríamos uma picada, na qual a sua intensidade variasse segundo a profundidade de cada ideia que apanhamos, mas não o é; e, não o sendo, como é possível conhecermos uma maneira comum de a destruirmos?
É verdade que qualquer ser vivo racional ao passar por um mesmo sítio teve o mesmo pensamento, quiçá alguns não se apanhem pelo passeio, quiçá o homem bonito de meia-idade não estará a pensar em matar o patrão, em segurar o revólver que delicadamente guarda por baixo da sua travesseira, quiçá já não o usou, quiçá o que está por baixo da sua cama seja pura e simplesmente um mero prolongamento do inconsciente, oh deus, sabe-se lá o que por ali vai…mas também ninguém quer saber. Cada centímetro de algodão puro alberga milhares de sonhos, já nas nuvens, sempre que ficam molhadas, albergam o período fértil da mulher que abrange quase toda uma vida de um homem, e, no fundo, o medo.
Vigio o homem, sentei o meu corpo no banco de rua com mais história que a bíblia, encostei-o bem, desfoquei a visão, estava agora a atravessar para o outro lado, estes já não focavam o homem, mas a cor garrida que este libertava, vi a sua alma a dançar, a minha estava apenas a assistir ao espectáculo; é assim que gosto de estar, era assim que preferia ficar a minha vida toda, gravava o som do meu coração numa cassete, enfiava-a no meu corpo, fazia-me viva, mas saía de mim. Gostava de me ver. Não quero homens de meia-idade, não quero.
terça-feira, 11 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
domingo, 2 de maio de 2010
Eternal sunshine of the spotless mind
Joel: I can't see anything that I don't like about you.
Clementine: But you will! But you will. You know, you will think of things. And I'll get bored with you and feel trapped because that's what happens with me.
Joel: Okay.
Clementine: [pauses] Okay
Clementine: But you will! But you will. You know, you will think of things. And I'll get bored with you and feel trapped because that's what happens with me.
Joel: Okay.
Clementine: [pauses] Okay
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Non, je ne regrette rien
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié,
Je me fous du passé!
Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs,
Je n'ai plus besoin d'eux!
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro...
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies,
Aujourd'hui, ça commence avec toi!
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié,
Je me fous du passé!
Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs,
Je n'ai plus besoin d'eux!
Balayé les amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro...
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Ni le bien qu'on ma fait,
Ni le mal - tout ça m'est bien égal!
Non... rien de rien...
Non... je ne regrette rien
Car ma vie, car mes joies,
Aujourd'hui, ça commence avec toi!
quinta-feira, 11 de março de 2010
Mesecina

20 de Abril de 1992
“Falta cumprir o Sol.” – Foi o primeiro e o último objectivo que escrevi delicadamente no meu caderno vermelho de papel grosso, cheirava tão agradavelmente bem que conseguia reter a parte fragmentária do cheiro que fica no cérebro, durante largos e meticulosos segundos sem pensar na frase que acabara por, inconscientemente, me obrigar a executar.
Às vezes, comparo o meu nariz, e outros instrumentos corporais, a uma máquina fotográfica que rouba pedaços da natureza e transforma-a em informação um tanto bidimensional para eu, ser humano, fazer juízos de valor quanto à amabilidade da coisa.
Já lá vai quase uma gravidez de tristeza e, ainda sem ter parido algo que se notasse, algo que pudesse condicionar a minha vida toda, vou procurando viver cada dia sem grandes enjoos. O sangue do meu cálice não é divino e, por isso, devo procurar o astro rei sozinha. Se o meu filho não se virar contrariamente ao meu sentido de gravidade, se o meu corpo não preparar, passo por passo, todas as condições naturais de um parto, como conseguirei viver a um aborto?!
A lua há-de cumprir-se, um dia, e, sem que note, trará a morte do meu pior lado simétrico e o acasalamento só com uma das partes.
A hibridez termina às seis e quarenta e nove minutos da manhã.
Apontamentos novos
“Falta cumprir o Sol.” – Foi o primeiro e o último objectivo que escrevi delicadamente no meu caderno vermelho de papel grosso, cheirava tão agradavelmente bem que conseguia reter a parte fragmentária do cheiro que fica no cérebro, durante largos e meticulosos segundos sem pensar na frase que acabara por, inconscientemente, me obrigar a executar.
Às vezes, comparo o meu nariz, e outros instrumentos corporais, a uma máquina fotográfica que rouba pedaços da natureza e transforma-a em informação um tanto bidimensional para eu, ser humano, fazer juízos de valor quanto à amabilidade da coisa.
Já lá vai quase uma gravidez de tristeza e, ainda sem ter parido algo que se notasse, algo que pudesse condicionar a minha vida toda, vou procurando viver cada dia sem grandes enjoos. O sangue do meu cálice não é divino e, por isso, devo procurar o astro rei sozinha. Se o meu filho não se virar contrariamente ao meu sentido de gravidade, se o meu corpo não preparar, passo por passo, todas as condições naturais de um parto, como conseguirei viver a um aborto?!
A lua há-de cumprir-se, um dia, e, sem que note, trará a morte do meu pior lado simétrico e o acasalamento só com uma das partes.
A hibridez termina às seis e quarenta e nove minutos da manhã.
Apontamentos novos
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Já não havia indícios de luz natural cá fora, apenas um conjunto de candeeiros de rua antigos iluminavam e, arduamente, aqueciam o frio que se tinha instalado. Era Inverno, Alice procurava desenfreadamente pelo seu telemóvel, como o fazia sempre que chegava a casa, na esperança de que alguma coisa, naquele aparelho insensível, indicasse com certeza o que poderia acontecer, assim que entrasse na porta velha de ferro. E, em silêncio permaneceu o instrumento tecnológico, sem nada que fosse importante de se mostrar, voltou para o seu sítio inicial. Com medo, Alice entrou em casa.
Esperava-lhe um ambiente falso, mas quente – “Vá lá que ao menos está quente cá dentro” – pensou. “Menos mau”, e continuou na sua forma desconfortável de todos os dias pousar a sua mochila e cumprimentar os seus pais. De facto, o seu irmão era a única pessoa com quem se sentia estranhamente confortável, dada a sua semelhança incandescente que ele tinha com o seu pai, mas este de forma muito mais infantil, era suportável. Sentava-se no quarto, na ânsia de possuir um pensamento diferente do que o que lhe era habitual apercebe-se de que não tem nada melhor para fazer, o prazer que sentia nas coisas tinha desaparecido. Nem mesmo tentar acções que lhe faziam feliz, lhe davam satisfação. Estava doente. Não obstante, prosseguiu no seu mar das coisas, afinal o pior já tinha passado e não queria voltar a pisar o caminho dos fracos.
Abriu o “Processo”, e, não lendo, imaginou a leitura à sua maneira:
Tio do josef k: Mas meu sobrinho, com um processo desses como podes reagir dessa forma??!
Josef K: De que outra forma poderia reagir, meu tio? Fui apanhado de surpresa, e, sabendo que nada tenho a ver com isto, continuo neste mar das coisas, rio-me para dentro, mas vou com eles, não me apetece reivindicar uma coisa com gente que não pensa como eu e que não vai lá por mais palavras que discutamos, de que me adianta? Eles têm mais poder do que nós. Vou esgotar-me?! Não, vou viver-me...para dentro, na minha própria liberdade.
Subitamente, Alice soltou um sorriso. Josef K. sabia exactamente o que ela pensava, ele compreendia-a.
Esperava-lhe um ambiente falso, mas quente – “Vá lá que ao menos está quente cá dentro” – pensou. “Menos mau”, e continuou na sua forma desconfortável de todos os dias pousar a sua mochila e cumprimentar os seus pais. De facto, o seu irmão era a única pessoa com quem se sentia estranhamente confortável, dada a sua semelhança incandescente que ele tinha com o seu pai, mas este de forma muito mais infantil, era suportável. Sentava-se no quarto, na ânsia de possuir um pensamento diferente do que o que lhe era habitual apercebe-se de que não tem nada melhor para fazer, o prazer que sentia nas coisas tinha desaparecido. Nem mesmo tentar acções que lhe faziam feliz, lhe davam satisfação. Estava doente. Não obstante, prosseguiu no seu mar das coisas, afinal o pior já tinha passado e não queria voltar a pisar o caminho dos fracos.
Abriu o “Processo”, e, não lendo, imaginou a leitura à sua maneira:
Tio do josef k: Mas meu sobrinho, com um processo desses como podes reagir dessa forma??!
Josef K: De que outra forma poderia reagir, meu tio? Fui apanhado de surpresa, e, sabendo que nada tenho a ver com isto, continuo neste mar das coisas, rio-me para dentro, mas vou com eles, não me apetece reivindicar uma coisa com gente que não pensa como eu e que não vai lá por mais palavras que discutamos, de que me adianta? Eles têm mais poder do que nós. Vou esgotar-me?! Não, vou viver-me...para dentro, na minha própria liberdade.
Subitamente, Alice soltou um sorriso. Josef K. sabia exactamente o que ela pensava, ele compreendia-a.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
13 de Fevereiro de 1992
Alternava de forma aleatória os pés, como me fora ensinado em criança; respirava com dificuldade cada cheiro (mais pesados que os outros) sobre a brisa que dava chapadas frias nas caras pecadoras, fitava com desdenho cada imagem, sem as estar a ver na realidade, desfocava-as e dava-lhes movimento, o meu movimento. Era mais solene do que aquele que qualquer outro ser humano podia visualizar e, por isso, a qualquer outro não chamava a atenção.
Tropecei numa rocha mal colocada, corri um bocado com a ansiedade de acelerar o processo, rodei o meu corpo e foquei um banco castanho e triste, sozinho e anestesiado com o cheiro a urina que o ar trazia para perto dele. Sentei-me numa parte que considerei limpa, após vários segundos de análise, sosseguei-me e parti. De repente, fiquei petrificada, apenas o corpo não se mexia, porque o resto estava completamente ligado, deslocadamente do mundo.
Sorri ironicamente, pois estava a ter um prazer que mais ninguém conseguia ver. Via imensas pessoas que conhecia correrem a alta velocidade, na minha direcção, a rasgarem-me a carne (que não me doía) e a entrarem-me dentro. Senti a força de cada uma delas e, mesmo assim, sentia-me fraca. Nada resolvia esta minha loucura consciente, nada parecia conseguir libertar-me dos momentos que pareciam eternos, vividos a dois, comigo.
A mesma não vontade de aqui estar persegue-me desde o belo dia em que nasci. Tecnicamente, esse dia ainda não chegou, pois faltam precisamente dois meses e oito dias, para que me obrigassem a vir. Com ventosas coladas ao meu cérebro; puxar-me-iam, até que conseguissem arrancar-me do ventre da minha mãe. Talvez, tenham tirado a pessoa errada, ou, então, algo de mim ficou lá e não veio.
Acendi uma vela e apaguei as luzes, sentei-me perto dela, não muito para que o ar que expiro não a matasse, contei-lhe um segredo a uma certa distância, fechei os olhos e, mesmo assim, o calor continuava igualmente excitante. O fogo não discriminava os meus assuntos mais profundos, nem me envergonhava perante uma existência vergonhosa e hostil.
Nunca soube escrever sobre isto, sobre o que vou dizer a seguir: Tenho saudades de o ter comigo. Vou aprendendo a viver desta maneira, com alguma aversão a respirar e a realizar cada ponto da minha desmazelada rotina, vou acendendo de vez em quando uma vela para me lembrar de alguém sem problemas em estar comigo, a três. Vejo-a apagar, vejo o seu fumo a ir embora e lembro-me de gozarmos com os sinais de fumo, quando queríamos comunicar. Vou pondo no meu presente, o passado e, não gozando o futuro, vou fazendo da história um tempo morto…
Tropecei numa rocha mal colocada, corri um bocado com a ansiedade de acelerar o processo, rodei o meu corpo e foquei um banco castanho e triste, sozinho e anestesiado com o cheiro a urina que o ar trazia para perto dele. Sentei-me numa parte que considerei limpa, após vários segundos de análise, sosseguei-me e parti. De repente, fiquei petrificada, apenas o corpo não se mexia, porque o resto estava completamente ligado, deslocadamente do mundo.
Sorri ironicamente, pois estava a ter um prazer que mais ninguém conseguia ver. Via imensas pessoas que conhecia correrem a alta velocidade, na minha direcção, a rasgarem-me a carne (que não me doía) e a entrarem-me dentro. Senti a força de cada uma delas e, mesmo assim, sentia-me fraca. Nada resolvia esta minha loucura consciente, nada parecia conseguir libertar-me dos momentos que pareciam eternos, vividos a dois, comigo.
A mesma não vontade de aqui estar persegue-me desde o belo dia em que nasci. Tecnicamente, esse dia ainda não chegou, pois faltam precisamente dois meses e oito dias, para que me obrigassem a vir. Com ventosas coladas ao meu cérebro; puxar-me-iam, até que conseguissem arrancar-me do ventre da minha mãe. Talvez, tenham tirado a pessoa errada, ou, então, algo de mim ficou lá e não veio.
Acendi uma vela e apaguei as luzes, sentei-me perto dela, não muito para que o ar que expiro não a matasse, contei-lhe um segredo a uma certa distância, fechei os olhos e, mesmo assim, o calor continuava igualmente excitante. O fogo não discriminava os meus assuntos mais profundos, nem me envergonhava perante uma existência vergonhosa e hostil.
Nunca soube escrever sobre isto, sobre o que vou dizer a seguir: Tenho saudades de o ter comigo. Vou aprendendo a viver desta maneira, com alguma aversão a respirar e a realizar cada ponto da minha desmazelada rotina, vou acendendo de vez em quando uma vela para me lembrar de alguém sem problemas em estar comigo, a três. Vejo-a apagar, vejo o seu fumo a ir embora e lembro-me de gozarmos com os sinais de fumo, quando queríamos comunicar. Vou pondo no meu presente, o passado e, não gozando o futuro, vou fazendo da história um tempo morto…
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